Quinta-feira, Fevereiro 01, 2007

Texto do mundofreudiano 01 02 O dilema do homem moderno

Muitas vezes quando sou tomado pelo entusiasmo das novas idéias e dos novos projetos, preciso racionalmente me deter. Tenho que considerar inúmeras variáveis simbólicas e pesar as ações dentro de uma lógica cartesiana. Nem sempre foi assim. Trata-se de uma escolha depois de algumas porradas na vida. penso que este é um mal do homem moderno: mover-se entre entes simbólicos como se fossem reais. Fico, então pensando que há alguns milhares de anos atrás, um decacentoavô qualquer movia-se somente levando em conta o real da coisa à sua volta e a cerca de cem anos atrás meus tataravôs, provavelmente, mexiam-se em uma cena muito mais imaginária.
Fico pensando em que o ideal seria buscar dentro de mim um pouco destes tataravõs e daqueles decacentoavôs para fazer como eles em cada oportunidade.

Quinta-feira, Janeiro 04, 2007

João Tenório - Parte 2


Com o véu branco transparente que deslizava desde os ombros até as costas, dessa às nádegas, que era palavra da cidade, pois no sertão é bunda mesmo, (e que bunda!), até os pés, passando por aquelas maravilhosas e torneadas pernas, parecia uma fada daqueles contos que escutara quando era menino. De relance um seio rígido se mostrava, durinho como só as moças em sua vitalidade juvenil têm. Intumescido o suficiente para causar inveja a falicidade de qualquer macho, no conjunto incluído João é claro, pois de sua macheza ninguém havia de duvidar.

Foi aí que ela olhou para ele.

Olhou sobre os ombros arqueando suavemente o pescoço. Olhou sobre toda aquela beleza. Olhou desde a noite enluarada do sertão que João aprendera a amar desde menino. Seu olhar minimizou o mundo.

Eram, agora, só João e o olhar da moça.

O olhar da moça cegava João. Lembrou daquela cantiga que dizia 'os olhos da cobra é verde, só agora que arreparei, se arreparasse a mais tempo, não amava quem amei", pelo menos era assim que João cantava. Eram olhos de cobra. Neles, João viu o desejo que queria que fosse dela mas desconfiava que fosse o seu.

O olhar da moça era espelho. Nele, João se via por inteiro. Se sentia atravessado por aquele olhar. Cortado desde o que ele queria ser até aquilo que ele era e não sabia. Mas aquele olhar sabia. E a moça que portava o olhar que sabia quem João era, lhe possuía. E João, que de início pensou que era ele que queria possuir aquela moça descobria agora que era possuído por ela.

Foi aí que ela correu.

Não sem antes dar aquele riso. Aquele riso que combinava com aquele olhar. Que juntos diziam: 'sei que você me quer e te tenho só por causa disso. E já que te tenho, não te necessito e é tu que tens de me pegar'.

Foi aí que João correu atrás da moça.

Correu sem se dar conta de como corria. Correu sem se dar conta de seu corpo. Era caça e caçador. Era pés e pênis. Uma estranha anatomia que corria atrás de um estranho olhar e um estranho sorriso. E tudo lhe parecia por demais conhecido. João atravessou os limites da mata pra desembocar nas bordas de um lago que era também muito estranho que estivesse ali.

Foi aí que ele viu.

Mundofreudiano 4 de janeiro de 2007

A cisão entre o corpo e o psíquico encontra muitas manifestações, sendo o seu campo principal a psicossomática. Poderá, entretanto, o decorrer de nossa análise alterar a forma que corpo e psíquico interagem? Essa interrogação me vem em decorrência de uma experiência que vivencio. Experiência que tem uma longa tradição de provocar angústia e sintomatização. O surpreendente é que a ausência de angústia se faz sentir quase de uma forma, ... eu diria enlouquecedora. Eu me pergunto: cadê a angústia que deveria estar aqui? Ela não chega e eu tendo a me desconhecer em um registro que leva a uma desindentificação ética. Seria melhor dizer... moral? Por outro lado a sintomatologia se apresenta no corpo. Ela identifica o sujeito, marca seu lugar no mundo, como uma âncora que não deixa flutuar o novo sujeito que não se angustia. Essa é uma experiência que está longe de ser banal. Nos faz quase beirar a um sentimento místico não soubéssemos a sua lógica de funcionamento.

Quinta-feira, Dezembro 14, 2006

João Tenório e o desejo fujão -1ª parte


João Tenório esfregou seus olhos, vindos de seu sono, acordado que fora pelo relinchar de Bonpeão. Relanceou o olhar para o animal apeado querendo ainda acostumar as vistas com o enluarado sertão. Divisou o semblante do cavalo com o olhar que, vindo da claridade de seus sonhos, ainda teimava em não se acostumar com as penumbras do mundo. Olhou então para onde parecia mirar a besta, procurando causa para o tumulto madrugal.

Foi aí que viu ...

Duvidou, por um instante, do que via, não sabendo ser assombração, ainda sonho, ou verdade verdadeira. Se era assombração, porém, despertava mais fascinação e desejo do que medo. Se era sonho, era daqueles que se desmanchavam em fluídos de macho e prazer. Se era verdade verdadeira, não tinha feito por merecer.

Lá, nos limiares da clareira onde tinha se deitado. Lá, onde uma mata ilhava a caatinga. Lá, onde seus olhos já desembaçados conseguiam divisar. Uma figura de mulher. Uma beleza de formosura. Mais do que mulher, fêmea. A mais bela das fêmeas que jamais vira. Pra comparar só com aquelas da grande tela. Ou da televisão. Mas era mais. Nem nas combinações que fazia nas suas idéias, combinando o mais belo rosto, com as mais torneadas pernas, os mais deliciosos seios, encontrava comparação. Nem quando sua imaginação resolvia desafiar a Deus, querendo com seu desejo, amparado nas suas prepotências genitais, criar uma deusa mais bela do que Eva, uma mulher que despertasse o desejo e a cobiça no próprio Deus, nem aí, nada parecido.

João soube naquele momento que aquilo era uma benção e uma perdição.
Trajava um vestido que não era uma camisola. E mesmo sem nunca ter lido Freud, nem ao menos dele ter ouvido falar, João se deu conta que sua negação estava prenhe de um sim. Não era camisola, mas era como se fosse. Fina e transparente dançava sobre aquele corpo como se ao mesmo tempo vestisse e desnudasse.

Era o impulso que faltava.

João Tenório tava de pé. Como saltara e que percurso realizou desde o chã,o onde se apoiava de costas nos cotovelos, até agora quando ereto mirava a dona, não tinha ciência. Sabia que no meio do caminho catara o facão já que o bicho estava em sua mão direita erguido. Notou-se todo fálico, que também era coisa que não sabia o que era, e se aperreou pensando que podia espantar a moça.

De lado, a moça não parecia afligida. Nem por João, nem por seu facão, nem por nenhuma de suas falicidades.

Mundofreudiano 14 de dezembro de 2006


Ser educador, o que é isto?
Termino, nestes dias, a primeira disciplina ministada em uma universidade pública (primeira?, importante formação do inconsciente). No início, vinte e poucas pessoas em minha frente. Disse-lhes: "Talvez seja possível cumprir este program até o final do ano"; desejo de quem em cena?
No decorrer do semestre algumas tensões com o grupo; pequenos conflitos que tiveram curso sem nenhuma fobia; reclamações sobre o volume das tarefas; declararam-se "as vítimas de Eduardo Sande".
Em nome de quem faziam o que faziam. A cada tarefa cumprida menções a iras com o educador e depois, frente a produção, a satisfação e o prazer do que foi produzido. "Eduardo xinguei você o final de semana inteiro e só depois de terminar o módulo fiquei grata". Em nome de quem o desejo opera a não ser no de cada um?
Uma reflexão me acompanha ao término desta experiência: a quem pode interessar não demandar aos jovens potenciais da universidade pública, ainda que seja alegando falta de condições e orçamento, sua realização em produções? Àqueles que ocupando as cátedras se sentem impotentes e querem que todos os demais se solidarizem com eles? E generalizando: será que somos os despontecializadores de nossos filhos e netos por um desejo sucumbido?
O desejo daquelas 15 ou 16 alunas, que reclamavam o tempo todo, ultrapassou o meu: me deram mais do que esperava obter. Bastou que permanecesse calado perguntando: Mas, o que vocês vieram fazer aqui?

Segunda-feira, Dezembro 04, 2006

Surpresa


No último banquete do Mundofreudiano fui pego pela surpresa. Um dos participantes trazia em seu discurso determinados conteúdos que pareciam, a mim, é evidente, apontar para o ‘Dom’ e a ‘Bondade’. Algo que seria da natureza do que gerou a intervenção de Liliana outro dia: ‘Mas nem em uma praia deserta se pode morrer em paz’. Intervi com um fragmento de entrevista inicial e logo depois com um fragmento de minha própria análise em que me dava conta de um determinado viés sádico que consistia em uma refinada tortura intelectual do outro, processo este que só se findava no momento em que provocava, neste, o choro. A surpresa foi constatar que esta confissão gerou, a seguir, quatro falas sucessivas que davam conta de situações idênticas. Ainda não consigo dar conta da amplitude deste acontecimento. De início, parece‑me que aponta para a retomada de algo que gerou uma certa filosofia do humano na teoria psicanalítica e que se perdeu em seu aburguesamento e institucionalização. Este é mais um encontro marcado. Encontro que o Mundofreudiano veste para mim com os trajes do inesperado.

Fugacidade paulistana

Olhou para os carros parados desde o elegante prédio de onde saia. As pessoas apressadas atravessavam a rua. Ao lado uma família de mendingos esmolava. Afroxou o nó de sua Hermes. Por um fugaz momento, em uma vida inteira, pensou ter compreendido o sentido de tudo.

Sexta-feira, Novembro 24, 2006

Microconto


Olhou pela janela a vastidão da catinga. Velava o cadáver do filho que transportava a aridez do sertão pra dentro de si.

Quinta-feira, Novembro 23, 2006


A pergunta que se segue nesta retomada de análise agora no sito do mundofreudiano é: qual o circuito e o significado de uma posição pré‑potente. Para resumir diria: isto remete ao meu esquema edípico. O importante é notar que a pré-potência opera. Quase como uma formação reativa. Você é capaz de fazer coisas a partir de uma aliança entre o simbólico e o real onde o imaginário manca. Ou, alternativamente, o imaginário passa a frente liberado das amarras do simbólico. Esse é o esquema da perversão. A tarefa parece ser suturar essas duas composições a partir de uma nova aliança entre real e imaginário na direção do simbólico. Isto tudo sem abrir mão das vantagens operacionais. Afinal, ninguém é besta!