Texto do mundofreudiano 01 02 O dilema do homem moderno
Fico pensando em que o ideal seria buscar dentro de mim um pouco destes tataravõs e daqueles decacentoavôs para fazer como eles em cada oportunidade.

Com o véu branco transparente que deslizava desde os ombros até as costas, dessa às nádegas, que era palavra da cidade, pois no sertão é bunda mesmo, (e que bunda!), até os pés, passando por aquelas maravilhosas e torneadas pernas, parecia uma fada daqueles contos que escutara quando era menino. De relance um seio rígido se mostrava, durinho como só as moças em sua vitalidade juvenil têm. Intumescido o suficiente para causar inveja a falicidade de qualquer macho, no conjunto incluído João é claro, pois de sua macheza ninguém havia de duvidar.
Foi aí que ela olhou para ele.
Olhou sobre os ombros arqueando suavemente o pescoço. Olhou sobre toda aquela beleza. Olhou desde a noite enluarada do sertão que João aprendera a amar desde menino. Seu olhar minimizou o mundo.
Eram, agora, só João e o olhar da moça.
O olhar da moça cegava João. Lembrou daquela cantiga que dizia 'os olhos da cobra é verde, só agora que arreparei, se arreparasse a mais tempo, não amava quem amei", pelo menos era assim que João cantava. Eram olhos de cobra. Neles, João viu o desejo que queria que fosse dela mas desconfiava que fosse o seu.
O olhar da moça era espelho. Nele, João se via por inteiro. Se sentia atravessado por aquele olhar. Cortado desde o que ele queria ser até aquilo que ele era e não sabia. Mas aquele olhar sabia. E a moça que portava o olhar que sabia quem João era, lhe possuía. E João, que de início pensou que era ele que queria possuir aquela moça descobria agora que era possuído por ela.
Foi aí que ela correu.
Não sem antes dar aquele riso. Aquele riso que combinava com aquele olhar. Que juntos diziam: 'sei que você me quer e te tenho só por causa disso. E já que te tenho, não te necessito e é tu que tens de me pegar'.
Foi aí que João correu atrás da moça.
Correu sem se dar conta de como corria. Correu sem se dar conta de seu corpo. Era caça e caçador. Era pés e pênis. Uma estranha anatomia que corria atrás de um estranho olhar e um estranho sorriso. E tudo lhe parecia por demais conhecido. João atravessou os limites da mata pra desembocar nas bordas de um lago que era também muito estranho que estivesse ali.
Foi aí que ele viu.
A cisão entre o corpo e o psíquico encontra muitas manifestações, sendo o seu campo principal a psicossomática. Poderá, entretanto, o decorrer de nossa análise alterar a forma que corpo e psíquico interagem? Essa interrogação me vem em decorrência de uma experiência que vivencio. Experiência que tem uma longa tradição de provocar angústia e sintomatização. O surpreendente é que a ausência de angústia se faz sentir quase de uma forma, ... eu diria enlouquecedora. Eu me pergunto: cadê a angústia que deveria estar aqui? Ela não chega e eu tendo a me desconhecer em um registro que leva a uma desindentificação ética. Seria melhor dizer... moral? Por outro lado a sintomatologia se apresenta no corpo. Ela identifica o sujeito, marca seu lugar no mundo, como uma âncora que não deixa flutuar o novo sujeito que não se angustia. Essa é uma experiência que está longe de ser banal. Nos faz quase beirar a um sentimento místico não soubéssemos a sua lógica de funcionamento.

Foi aí que viu ...
Duvidou, por um instante, do que via, não sabendo ser assombração, ainda sonho, ou verdade verdadeira. Se era assombração, porém, despertava mais fascinação e desejo do que medo. Se era sonho, era daqueles que se desmanchavam em fluídos de macho e prazer. Se era verdade verdadeira, não tinha feito por merecer.
Lá, nos limiares da clareira onde tinha se deitado. Lá, onde uma mata ilhava a caatinga. Lá, onde seus olhos já desembaçados conseguiam divisar. Uma figura de mulher. Uma beleza de formosura. Mais do que mulher, fêmea. A mais bela das fêmeas que jamais vira. Pra comparar só com aquelas da grande tela. Ou da televisão. Mas era mais. Nem nas combinações que fazia nas suas idéias, combinando o mais belo rosto, com as mais torneadas pernas, os mais deliciosos seios, encontrava comparação. Nem quando sua imaginação resolvia desafiar a Deus, querendo com seu desejo, amparado nas suas prepotências genitais, criar uma deusa mais bela do que Eva, uma mulher que despertasse o desejo e a cobiça no próprio Deus, nem aí, nada parecido.
João soube naquele momento que aquilo era uma benção e uma perdição.
Trajava um vestido que não era uma camisola. E mesmo sem nunca ter lido Freud, nem ao menos dele ter ouvido falar, João se deu conta que sua negação estava prenhe de um sim. Não era camisola, mas era como se fosse. Fina e transparente dançava sobre aquele corpo como se ao mesmo tempo vestisse e desnudasse.
Era o impulso que faltava.
João Tenório tava de pé. Como saltara e que percurso realizou desde o chã,o onde se apoiava de costas nos cotovelos, até agora quando ereto mirava a dona, não tinha ciência. Sabia que no meio do caminho catara o facão já que o bicho estava em sua mão direita erguido. Notou-se todo fálico, que também era coisa que não sabia o que era, e se aperreou pensando que podia espantar a moça.
De lado, a moça não parecia afligida. Nem por João, nem por seu facão, nem por nenhuma de suas falicidades.


