João Tenório - Parte 2

Com o véu branco transparente que deslizava desde os ombros até as costas, dessa às nádegas, que era palavra da cidade, pois no sertão é bunda mesmo, (e que bunda!), até os pés, passando por aquelas maravilhosas e torneadas pernas, parecia uma fada daqueles contos que escutara quando era menino. De relance um seio rígido se mostrava, durinho como só as moças em sua vitalidade juvenil têm. Intumescido o suficiente para causar inveja a falicidade de qualquer macho, no conjunto incluído João é claro, pois de sua macheza ninguém havia de duvidar.
Foi aí que ela olhou para ele.
Olhou sobre os ombros arqueando suavemente o pescoço. Olhou sobre toda aquela beleza. Olhou desde a noite enluarada do sertão que João aprendera a amar desde menino. Seu olhar minimizou o mundo.
Eram, agora, só João e o olhar da moça.
O olhar da moça cegava João. Lembrou daquela cantiga que dizia 'os olhos da cobra é verde, só agora que arreparei, se arreparasse a mais tempo, não amava quem amei", pelo menos era assim que João cantava. Eram olhos de cobra. Neles, João viu o desejo que queria que fosse dela mas desconfiava que fosse o seu.
O olhar da moça era espelho. Nele, João se via por inteiro. Se sentia atravessado por aquele olhar. Cortado desde o que ele queria ser até aquilo que ele era e não sabia. Mas aquele olhar sabia. E a moça que portava o olhar que sabia quem João era, lhe possuía. E João, que de início pensou que era ele que queria possuir aquela moça descobria agora que era possuído por ela.
Foi aí que ela correu.
Não sem antes dar aquele riso. Aquele riso que combinava com aquele olhar. Que juntos diziam: 'sei que você me quer e te tenho só por causa disso. E já que te tenho, não te necessito e é tu que tens de me pegar'.
Foi aí que João correu atrás da moça.
Correu sem se dar conta de como corria. Correu sem se dar conta de seu corpo. Era caça e caçador. Era pés e pênis. Uma estranha anatomia que corria atrás de um estranho olhar e um estranho sorriso. E tudo lhe parecia por demais conhecido. João atravessou os limites da mata pra desembocar nas bordas de um lago que era também muito estranho que estivesse ali.
Foi aí que ele viu.
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